Deus conta as lágrimas das mulheres (2014)

 

Uma antiga lenda judaica afirma que Deus conta as lágrimas das mulheres. O que dizer se essas lágrimas se apresentam como tinta, com que se escreve a dor e o luto das perdas de uma mulher que escreve?

Autora de ensaios, contos, romances e poemas, Maria José de Queiroz imprime, em O livro de minha mãe, a marca de sua produção intelectual e artística, com sua memória prodigiosa ao descrever e a narrar a vida com sua mãe em momentos de cumplicidade, de dor e de melancolia, de encontros maravilhosos de amizade, erudição e encantamento com Monsenhor Messias, em Belo Horizonte, e com Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro, só para citar alguns dos amigos que vêm iluminar as páginas do livro.

Sua pena e penas ferem o papel como quem escreve sobre a pele: tatuagem. A escrita produz desenhos e cicatrizes na escritora e no seu leitor que poderá, desavisado, pensar que está a percorrer apenas uma trilha de caminhos que se bifurcam entre a dor da perda e o seu registro na escrita; no entanto, algo mais subterrâneo, sob a pele, insurge-se.

Maria José de Queiroz é autora de ensaios fundamentais, que demonstram sua erudição e vario interesse, como A literatura e o gozo impuro da comida, de 1994; Os males da ausência ou A literatura do exílio, de 1998, e Em nome da pobreza, de 2006. Destaco, dentre os seus romances, Homem de sete partidas, de 1980, com prefácio primoroso de Pedro Nava, e Joaquina, filha do Tiradentes, de 1987, republicado em edição integral, com posfácio da autora, pela Topbooks, em 1997. A poesia de Maria José de Queiroz é um exercício estético rigoroso entre a exatidão e a multiplicidade. Em Resgate do real: amor e morte, de 1978, o tinteiro melancólico da escritora torna-se o ponto máximo de sua escrita poética.

O livro da minha mãe
, no entanto, se traduz na memória que fia e desfia o passado, tentando recuperar a infância e o pai, morto ainda jovem, no conforto dos braços fortes e acolhedores da mãe. A poesia, a música, as histórias de Minas são elo que unem mãe e filha, quase em simbiose.

Inscrita na longa tradição de escritores que, no luto, tentam traduzir essa grande falta que é a morte da mãe, Maria José de Queiroz faz ecoar os fragmentos de Diário do luto, de Roland Barthes, em que o escritor trata de “uma dor absurda, impossível de contornar”. De forma mais contundente, estabelece, ainda, um diálogo, um encontro de vozes, com Alberto Cohen, em O livro de mamãe, verdadeiro testamento poético do escritor, “uma noite com palavras”. Esses dois textos aparecem, sanguíneos, por entre as páginas de O livro de minha mãe.

Artesã da palavra, como bem definiu Pedro Nava, Maria José de Queiroz faz uma espécie de tatuagem, neste livro sobre as mães – afinal, todas as mães são a mãe. Sua escrita, ao mesmo tempo em que fere, vai imprimindo, na pele, múltiplas imagens de flores, corações, rendas, asas, inscrições, algumas muito antigas, outras próximas de nós, comuns a todos os leitores. Seu texto vai exorcizando demônios e recriando o fio da vida, fazendo florescer as cicatrizes. Assim, um tinteiro aparentemente seco e melancólico torna-se, pela escrita, um crisol de alquimista, uma fonte que transforma lágrimas em tinta.

QUEIROZ, Maria José de. O livro de minha mãe. Rio de Janeiro: Topbooks, 2014.

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