Vida escrita nas sombras (1996)


Outrora achava o acréscimo diário de pequenos atos
O alimento para o coração entorpecido,
Dores e violência sendo a dieta adequada da vida,
Agora, afastada da loucura dos extremos
Por aquilo que tem se ser feito, o aqui,
Como as fronteiras que são mantidas pela paciência, após a guerra,
Entra o sereno amigo, e minhas mãos ensinadas pelo tempo
Misturam o pão e consertam a casa em ruínas.
(Doris Lessing)

O segundo volume da autobiografia da escritora Doris Lessing – nascida em Kermanshah (antiga Pérsia, 1919) e falecida em Londres, em 2013 – além de se configurar como um relato vibrante sobre os anos após a II Guerra Mundial, delineia, de forma poética e lúcida, algumas questões em que uma mulher – comunista e escritora – tece os emaranhados fios que se armam entre a política e a escrita, entre o texto e a vida.

Antes, o primeiro volume, Debaixo da minha pele, compõe-se de relatos sobre a infância, a adolescência e a juventude, a vivência da sexualidade e o prazer de escrever. O estilo despojado da escritora, no entanto, não esconde uma reflexão requintada sobre os problemas da autobiografia, da escrita da vida. Nesse volume, Lessing afirma que as mulheres, em geral, são apagadas da memória e depois da história. A contrapelo dessa sentença, o segundo volume, Andando na sombra, descortina não só o papel de uma intelectual no contexto europeu do pós-guerra, como também, a partir da sua vida, mapeia os anseios e as paixões que marcaram as vidas de jovens intelectuais nas décadas de 1940 a 1960.

Impossível descrever a vida de um escritor porque a parte real não pode ser escrita, argumenta Lessing. Fica, no entanto, sobre as páginas de sua autobiografia, uma mulher escrita. Como que debruçada sobre um espelho, ela busca ver-se enquanto escreve: “eu ando e rondo, as mãos ocupadas com isto ou aquilo. Seria de se pensar que sou um modelo de dona de casa. Caio no sono por alguns minutos porque entrei num estado de tensão elétrica desconfortável. Ando, escrevo. Se o telefone toca, tento atendê-lo sem romper a concentração. E assim vai, o dia todo, até que seja hora de pegar meu filho na escola...”.

Essa escrita com o corpo, entremeada a afazeres domésticos e interferências da vida comum, saltam aos olhos do leitor, ansioso por flagrar, debaixo da pele e da página, escrita íntima da sombra, a mão que escreve e dela faz exercício de narrar-se, de encenar-se no palco da página.

Tempos difíceis produzem pessoas extraordinárias, diz Lessing. A triste Londres dos anos 1940 e início dos anos 1950 recebe uma jovem e seu filhos vindos da Rodésia do Sul. A cidade sem pintura, manchada, rachada e cinzenta fora bombardeada. Algumas áreas eram só ruínas com buracos cheios de água suja. A Londres sujeita a nevoeiros súbitos e escuros implacáveis a acolheu como uma lousa limpa, uma página nova, na qual tudo estava por vir e todos os livros estavam por se escrever. Nesse cenário precário e em ruínas. ela é generosa e hospitaleira. Exercer a hospitalidade em tempos sombrios requer, de todos, empatia e solidariedade.

Entre editoras, trabalhos domésticos e empregos que roubavam o tempo da escrita, mas propiciavam uma certa sobrevivência, havia os membros do Partido Comunista. Fomos sustentados no exílio pelo esplendor da Palavra, diz a escritora, e logo mais entraremos em nossa terra prometida. Esse utópico olhar sobre o mundo e o poder da palavra, conclui, fez com que os comunistas seus conhecidos fossem alimentados e sustentados pela literatura: Shelley, Keats e Hopkins, Dickens e Hardy, as Brontë e Jane Austen fizeram parte desse acervo literário do exílio de jovens políticos refugiados numa Londres que renascia sob as reuniões do Partido, as passeatas pela paz e os congressos e conferências de intelectuais e de escritores.

Um encontro com uma leitora especial no Rio de Janeiro é descrito de forma emocionada. Estava sentada num bar frente a um hotel quando foi abordada por jovens prostitutas. “Minha amiga quer lhe dizer uma coisa. Ela não fala inglês. Ela adora você”. Na verdade, reflete, ela adora o livro O carnê dourado que lhe caiu nas mãos. “Como é que o livro chegou a uma das piores favelas do mundo? Fiquei infinitamente comovida, agradecida.”

“Hoje”, afirma Lessing, “acredito que a necessidade de aprender seja a paixão mais poderosa que temos, e a mais profunda também; acredito,” acrescenta, “que os jovens, quando começam novas revistas, ou uma nova onda, ou comunas, estão na verdade construindo situações onde podem aprender muito em pouco tempo.”

O chapéu comprado em Paris, o primeiro gato, o alcoolismo, fragmentos de cartas, retratos. Tudo, quando se é uma escritora como Doris Lessing, que utiliza a escrita para descobrir o que se pensa e, até mesmo, quem se é, cada detalhe é peça de um mosaico composto de vestígios de uma memória que se escreve enquanto o sujeito se constitui pela narrativa.


LESSING, Doris. Debaixo da minha pele: primeiro volume da minha autobiografia, até 1949. Tradução: Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

LESSING, Doris. Andando na sombra: segundo volume da minha autobiografia, 1949-1962. Tradução: Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


Uma história de judeus e de medicina na América Latina (1996)

O romance A saga do marrano, de Marcos Aguinis, inscreve-se numa vertente de narrativas contemporâneas que promovem um discurso interdisciplinar entre a narrativa histórica e a construção de cenários e vozes pela ficção. Por isso, o trabalho fabulador do ficcionista passa por uma espécie de ambivalência, ou seja, o romancista-historiador constrói sua trama a partir de elementos factuais apropriados da história.

Armado sob a égide do Pentateuco, o romance se estrutura em cinco partes: Gênese, brasas da infância; Êxodo, o trajeto da perplexidade; Levítico: a cidade dos reis; Números, Chile: a breve Arcádia e Deuteronômio, abismo e cume. Por intermédio dos cinco livros bíblicos, o romancista trança a história dos judeus perseguidos pelo Santo Ofício na América Latina no século 16 e 17 com a ficção.

A narrativa busca reconstruir a saga de Francisco Maldonado da Silva, cristão-novo, cognominado marrano, como todos os judeus e mouros da Península Ibérica que, embora professando abertamente o cristianismo para evitar perseguições, continuam ocultamente fiéis à sua primitiva religião. “O efeito é trágico: somos católicos na aparência para sobreviver na carne, e somos judeus por dentro, para sobreviver no espírito”, como afirma o narrador.

O romance começa com a instalação do médico Diego Nuñez da Silva em San Miguel de Tucumán, Argentina. Nascido em Lisboa em 1548, este, quando obtém licenciatura em medicina, aos trinta e dois anos, farto das perseguições, decide fugir, mas ao desembarcar no Brasil, percebe que convinha afastar-se do território dominado pela Coroa Portuguesa. Assim, continua até o Peru, a lendária Potosí e, finalmente, até a província de Tucumán. Ali conhece Aldonza Maldonado, formosa cristã velha com quem teve quatro filhos: Diego, Francisco, Isabel e Felipa, que foram educados no catolicismo.

No entanto, Diego, o filho mais velho, machuca-se e o pai ao cuidar do pé enfermo, conta-lhe sobre a sua origem judaica e a necessidade de mantê-la oculta. Francisco ouve tudo. Diego Nuñez da Silva é delatado pelos religiosos que frequentavam sua casa, preso pela Inquisição e deportado para Lima, onde tem os pés queimados e o corpo atravessado por torturas até que renega a fé judaica e aceita o sambenito, “escapulário infamante, que chegava até os joelhos e vociferava sobre sua condição repudiável. Aqueles que eram humilhados com essa roupa terrível deviam usá-la eternamente para que os fiéis os discriminassem. E, após sua morte, o sambenito seria pendurando junto à porta da igreja, com seu nome em letras gigantescas, para que sua descendência também sofresse a devida mortificação”.

Adulto, Francisco vai para Lima para também estudar medicina e tentar rever o pai, preso há anos. O encontro deles e o descobrimento do judaísmo é um dos momentos mais delicados do romance que, por vezes, apresenta-se sombrio.

A narrativa detalhada das sessões de torturas e as descrições dos parcos recursos da medicina intentam suturar uma memória que se apresenta mutilada. O corpo dos prisioneiros é continuamente sujeito ao vilipêndio e às dores para cumprir a didática função de exemplo. Sangrias, amputações, lepra e tortura se equivalem. No caso de Mencia de Luna, jovem judia flagelada, o notário do Santo Ofício não se esquece de escrever que os juízes pronunciaram a devida justificativa: “E se no dito tormento morresse ou fosse aleijada, ou ocorresse perda de sangue ou mutilação de membros; seja por sua própria culpa e responsabilidade e não nossa.”

O romance histórico caminha pari passu com a documentação. Há, no entanto, episódios de rara beleza como a explicação sobre a letra hebraica shin encontrada por um dos meninos numa misteriosa caixa, “é o começo de muitas palavras: shemá, ‘ouve’, shalom, ‘paz’. Mas, sobretudo, é a primeira letra de shem, que significa ‘nome’. Acima de todos os nomes, existe o Shem, o ‘Nome’. Quer dizer, o inefável nome de Deus. O Shem tem infinito poder. Sobre isto, os cabalistas realizaram inúmeros estudos”.

Também se destaca o episódio da criação de dois livros na prisão por Francisco, colando pedaços pequenos de papel de embrulho até conseguir uma página, com um prego retirado da masmorra ele constrói uma pena para escrever. Cada página é preenchida com palavras miúdas parecidas com letras de forma. Francisco Maldonado da Silva não repudia sua fé, é condenado à fogueira e, na ocasião de sua execução, amarram em volta de seu pescoço os livros que escreveu na prisão. Várias testemunhas registram o instante em que as chamas azuis alcançam as folhas e um torvelinho de letras começa a girar insistentemente em torno de seus cabelos como uma coroa de safiras. A imagem magnífica e terrível do martírio de Francisco remete o leitor ao místico reino dos cabalistas judeus e do estudo e do amor aos livros. Se, como afirma o Zohar, em cada palavra brilham muitas luzes, no corpo-livro de Francisco brilham – como safiras – (da mesma raiz de sefer, livro) um testemunho da condição do homem e o do seu desejo de decifrar o universo por meio da escritura.

AGUINIS, Marcos. A saga do marrano. Trad. Hugueta Sendacz. São Paulo: Editora Página Aberta Ltda, 1996.


Da minha mão ensanguentada (1996)



Da minha mão ensanguentada

A mesa de trabalho está arrumadinha...
Parece que ninguém escreveu aqui!
Onde estão os dicionários e as gramáticas
que insinuam a palavra correta?
O verbo na perfeita genuflexão?
O trabalho de bordar é findo.
Da minha mão ensanguentada,
os fios escorrem até o chão.