A face judaica da literatura brasileira (Glorinha Cohen)

 

A FACE JUDAICA DA LITERATURA BRASILEIRA –  TEMA DE LYSLEI NASCIMENTO NO CONGRESSO “JEWS IN THE AMERICAS” EM KANSAS/USA

Profa. Lyslei Nascimento e o Prof. Luciano Tosta da Universidade do Kansas

“Desde a chegada dos portugueses no Brasil, em 1.500, os escritores judeus têm contribuído para a riqueza da nossa literatura. Não só ensinando a prática da coexistência, como, na vanguarda, experimentando novas formas de tornar a pátria encadernada, o livro, uma construção coletiva, diária e necessária”. Assim a Profa. Dra. Lyslei Nascimento começou a palestra “Escritores Judeus: A Face Judaica da Literatura Brasileira” , aliás, a principal da conferência “Jews in the Americas” realizada dia 19 de abril de 2024 no campus da University of Kansas, nos Estados Unidos.

A palestra foi assistida por professores e alunos da universidade e foi também transmitida online para quase 60 participantes virtuais da conferência que estavam localizados em dez países na América Latina, América do Norte, Europa e Ásia. A conferência “Jews in the Americas” foi organizada pelo Center for Global and International Studies e pelo Jewish Studies Program da University of Kansas.

Sobre Lyslei Nascimento

É Professora Titular de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde atua nas áreas de Teoria da Literatura, Literatura Comparada e Literatura Judaica. Doutora em Letras: Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, Pós-Doutora pela Universidade de Buenos Aires (UBA), Argentina, e pela Universidade de São Paulo (USP). Editora da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Coordenadora do GT de Literatura Estrangeira da ANPOLL. Pesquisadora Associada do Centro de Estudos Judaicos da USP. Vencedora do Travel Award 2015-2016 para Pesquisa Judaica Latino-Americana na Universidade do Texas em Austin e University Affiliate Visiting Scholar/Visiting Researcher (2015) na Universidade do Texas em Austin, EUA. Autora de, entre outros títulos: Borges e outros rabinos (2009), Despertar para a noite e outros ensaios sobre a Shoah (2019) e Exercício de fiandeira: Joaquina, filha do Tiradentes, de Maria José de Queiroz (2022). Coorganizadora de: Os fazedores de Golems (2004, 2021); O olhar enigmático de Moacyr Scliar (2019); Estudos Judaicos: Literatura Israelense (2022); Estudos Judaicos: Sefarad (2022); Estudos Judaicos: Mulher (2023).

Resumo da palestra

“Uma Face Judaica da Literatura Brasileira”: Desde a chegada dos portugueses em 1500, os escritores judeus têm contribuído para a riqueza, a diversidade e a multiplicidade de perspectivas, não apenas ensinando a prática da convivência, mas também buscando formas de tornar o livro, a pátria encadernada, como morada metafórica, construção coletiva, cotidiana e necessária. Em Imigrantes Judeus/Escritores Brasileiros, publicado em 1997, Regina Igel, em ensaio incontornável sobre a criação literária judaica no Brasil, avalia a trajetória de diversos autores judeus brasileiros e seu processo de integração linguística e cultural. Em Entre Passos e Rastros, publicado em 2003, Berta Waldman, num conjunto de ensaios solares sobre a presença judaica na literatura brasileira contemporânea, reflete sobre escritores importantes como Clarice Lispector, Samuel Rawet, Jacó Guinsburg.

Embora incomum no cânone literário brasileiro, é possível traçar uma linha com escritores judeus desde o Brasil Colônia até a contemporaneidade. Bento Teixeira, Ambrósio Fernandes Brandão e Antônio José da Silva são alguns desses primeiros autores. Nascidos no Brasil, Moacyr Scliar, Cíntia Moscovich, Ana Cecília Carvalho, Paulo Rosenbaum e Noemi Jaffe, entre outros escritores extraordinários, iluminam o exílio, um dos temas recorrentes, como era de se esperar, da literatura judaica brasileira. A palestra evocou alguns desses autores e seus temas privilegiados, traçando um rosto, ou um perfil, da literatura judaica brasileira.

Fonte: https://glorinhacohen.com.br/?p=66940


























Pré-lançamento de "Como me contaram (fábulas historiais volume I e II)", de Maria José de Queiroz


UM MOSAICO DE FÁBULAS HISTORIAIS

(Lyslei Nascimento)


O primeiro volume de Como me contaram… fábulas historiais, publicado por Maria José de Queiroz em 1973, sai, nesta edição, em 2023, junto ao seu segundo volume.  Herdeira de ancestralidades heroicas, em culto aos “deuses lares” e  à mitologia da  família, a escritora transita, nesses preciosos poemas, contos, lápides, pela história de Minas Gerais, metáfora do Brasil, conferindo às narrativas, um caráter fabulatório inigualável. Minas Gerais é, pois, estado d’alma e está além do som. A cronista, de prodigiosa memória, inscreve-se no texto registrando fábulas e acontecimentos, resgatando, pela escrita, as narrativas ouvidas, lidas e reconstruídas pela imaginação. As histórias ou realidades, sempre “bons pertences” da terra mineira, são organizadas num misto de folclore e de “verdade verdadeira”, ao sabor de Garcilaso de la Vega e de Jorge Luis Borges. Como um mosaico de “fábulas historiais”, ela vai juntando, por bricolagem, os pedaços da história. Desse exercício de mosaísta da escritora, resulta um quadro literário dos mais requintados. Marcados pelos nomes das cidades mineiras, Mariana, Vila Rica, São João Del-Rei, e pelas datas dos acontecimentos, 1752, 1782, 1898, esses registros parecem despretensiosos e quase corriqueiros. No entanto, lapidares, as narrativas dedicadas ao condenado de Vila Rica, a Maria Brites, ao bibliotecário do Caraça ou ao Lobisomem da Quaresma brilham na trama do bordado. Nessas histórias, é possível perceber uma técnica sofisticada, um rigoroso exercício de composição textual. Ao entrelaçar o fio da história com o fio da ficção, o texto escrito, nas mãos da cronista, é bordado e tapete com mil fios e mil histórias, idas, vividas e reinventadas. Há de se levar em conta, então, que a história, no registro de Queiroz, é “como me contaram”, ou seja, tem o aval de quem conta um conto, de quem aumenta ou subtrai ponto, linha, nó. Se qualquer destino pode ser inventado ou construído, o leitor deve estar atento ao risco do bordado, à construção desse tecido-texto que não tem por base somente o fio do que foi documentado, mas também o que foi desfiado, fiado e porfiado. Minas, como uma espécie de biblioteca infinita, exibe, nas fábulas historiais de Maria José de Queiroz, inúmeras e inigualáveis preciosidades narrativas. Vamos a elas!


Fonte: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/como-me-contaram-fabulas-historiais-volume-i-e-ii/


Programa Lombada à Frente, com Miguel Rettenmair, sobre "Animais Desaparecidos.

"Lombada à Frente" é o seu programa semanal com dicas de leitura. A curadoria e apresentação do conteúdo é feita pelo escritor Miguel Rettenmaier. No episódio de hoje, conheça a obra "Animais Desaparecidos", de Lyslei Nascimento.

Fonte: https://open.spotify.com/episode/1WOnpana7CODYEHImiAs34


Photo by Rudi van Aarde




OPINIÃO

Animais desaparecidos em distopia

Livro descortina ação humana na catástrofe ecológica

Publicado em 22 de maio de 2023 | Por Lucia Blanc Barnea

Big colorful elephant is a painting by Kovacs Anna Brigitta which was uploaded on August 26th, 2015.

Atravessar os microcontos de “Animais Desaparecidos”, de Lyslei Nascimento, é um convite e um desafio para viajar pelo futuro de uma antropocena, um novo período da história do planeta, “em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica”, de acordo com José Eustáquio Diniz Alves, a partir do grau de impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza, avaliado pelo Prêmio Nobel de Química (1995) Paul Crutzen.

Composto por 12 narrativas de leveza quase insustentável e 14 verbetes ausentes, dispostos segundo a ordem alfabética, o livro de Lyslei Nascimento é um objeto compacto, quase um caderno de anotações, que não deixa de exibir um tom de registro nostálgico em uma estética quase minimalista entre o visível e o invisível.

Mais que um rolodex ou um caleidoscópio de animais extintos, as narrativas desfilam obras humanas importantes, inspiradas ou conectadas com a natureza de modo amplo, como a Bíblia em seu Velho e Novo Testamentos, a literatura de Jorge Luis Borges e de José de Alencar, a obra de William Shakespeare e de Machado de Assis, bem como a de Malba Tahan... a Royal Geographical Society, a psicanálise, a homeopatia.

Apesar de não explícito, outrossim nos desassossega o descortinar da ação humana em seus diferentes matizes na condução sistemática de uma catástrofe ecológica apocalíptica – seja nas queimadas, no comércio de carnes exóticas, na captura e no aprisionamento de borboletas com o objetivo de colecioná-las, na destruição da natureza e na construção das megalópoles de concreto armado da contemporaneidade; seja na manipulação genética para a criação de novas raças de animais, ou no assassinato brutal de elefantes para a captura de suas presas. 

Os animais aparecem não raro na sua forma plural, quiçá para despertar nosso pensamento e dirigi-lo ao caráter gregário da natureza. Nesse sentido, mais de uma espécie animal é, por vezes, citada em um mesmo verbete. Assim ocorre que o hipopótamo é citado no verbete da letra E, enquanto não há registro de animal que se inicia com a letra H, talvez para sugerir certa demência do animal-homem, no tecer dos fios da memória de uma civilização desmemoriada.

Animais Desaparecidos é, assim, um livro enxuto, de dimensões reduzidas, páginas cheias, páginas quase vazias, meias páginas, quase um compósito de pequenos textos e por folhas quase brancas. A leitura é frugal, singela, delicada como sua autora. A um só tempo, pode ser lido de um só fôlego, cortante e melancólico, com um forte quê de ecologia, talvez nossa última utopia. 

Sua autora, a professora Lyslei Nascimento, mestre generosa de inteligência plural e cultivada, nos guia – no prefácio e nas epígrafes selecionadas – a que veio, quem a inspira, com quem dialoga, e nos fornece uma lição que é todo um alarme de “ecoansiedade” pelo futuro do humano, como o conhecemos hoje. Reza a sabedoria tradicional que, sabendo usar, não faltará.

Lucia Blanc Barnea é escritora e antropóloga.

Fonte: https://www.otempo.com.br/opiniao/artigos/animais-desaparecidos-em-distopia-1.2872544

Fonte: https://www.incomunidade.pt/animais-desaparecidos-em-distopia-lucia-blanc-barnea/