Uma poética da arqueologia no romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum (2016)

O romance Céu subterrâneo, de Paulo Rosenbaum, surge em um tempo em que o leitor já não cultiva o que não pode ser abreviado. No entanto, amante das grandes narrativas, como se pode constatar desde A verdade lançada ao solo, de 2010, o escritor, ao tentar realizar uma síntese impossível do céu – as coisas do alto, como a espiritualidade – e as subterrâneas – não somente as coisas terrenas, mas aquelas que estariam abaixo nível do chão, como a memória e a identidade – inscreve-se numa poderosa tradição de romancistas como Umberto Eco e Salman Rushdie.

Esses escritores se esmeram em construir suas tramas a partir do que Italo Calvino chamou de hiperromance ou romance enciclopédico, uma narrativa marcada pela tensão entre o peso e a leveza, a exatidão e a multiplicidade. Na contramão do desejo de brevidade, eles oferecem ao leitor uma narrativa densa, cheia de camadas, idas e vindas, jogos temporais e espaciais, intertextos sofisticados, buscas quase infinitas de duplos e fantasmagorias, além de uma concepção fundamental da literatura como conhecimento. O convite à leitura é, portanto, nesses autores, um desafio à viagem, à investigação.

Na trama de Rosenbaum, um escritor viaja para Israel em busca de si, de sua inscrição numa tradição da qual ele acredita ser “desafilhado”. Por isso, não é só um ponto de vista que é sugerido pela expressão paradoxal “céu subterrâneo”, mas também um jogo entre o fora e o dentro, a exclusão e a inclusão, que está em perspectiva. O que se percebe, nesse sentido, é que a narrativa vai se adensando e um enigma precisa ser decifrado pelo personagem e pelo leitor, que se veem diante de um labirinto, com suas ruas e ruelas, falsas entradas e ilusórias saídas – tudo muito bem arquitetado para fazer perder tanto o personagem quanto o leitor.

Decifrar ou ser devorado parece ser o que, irremediavelmente, impele o protagonista, “o estranho que se estranha”, para o que seria a sua busca pela verdade, pela resolução do que a ele, e ao leitor, se impõe como um problema, real ou psicológico. Inquérito e investigação, em construções análogas as de Edgar Alan Poe, a concepção do amigo Assis Beiras, faz lembrar Conan Doyle com o célebre parceiro de Sherlock Holmes: um Dr. Watson tropical. Escavando e recordando, como queria Walter Benjamin, as referências à narrativa de enigma e de investigação policial não são gratuitas. Torna-se, assim, o narrador o investigador de si mesmo, de suas origens, e o leitor o seu cúmplice.

O que Adam Mondale deseja em sua tentativa de desvendar um passado ancestral judaico e, é preciso dizer, coletivo? Desentranhar-se ou ali se inscrever, de forma singular? A sua busca de uma imagem da sepultura de Adão, o homem primordial, não é banal ou retórica, mas se dá a partir de leituras e releituras, de livros, de imagens, de tradições que vão desarmando interpretações cristalizadas e armando outras, mais precárias, porém sutis. Nesse sentido, o romance trata de coisas desaparecidas, ou soterradas, e das inexistentes, ou imaginárias.

A referência a um código pictórico, como o Jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch, por exemplo, e fotográfico, como o negativo da Polaroide encontrado e seu correspondente holograma, são explorados no uso de um vocabulário ambíguo, que pode ser tomado em vários sentidos. Desse modo, revelação, iluminação ou negativo são termos que podem ser levados às últimas consequências interpretativas. Assim, a fotografia, que poderia ser uma prova de realidade, e a busca que o narrador realiza, são postas em xeque, fazendo surgir sombras ou delírios, tudo muito bem entretecido com reflexões pungentes sobre a escrita e dilemas de um escritor na contemporaneidade.

Quase como um místico à deriva, ou um voyeur, numa irônica condição de sofrer de uma doença nos olhos, cuja “córnea é riscada”, prejudicando-lhe a visão perfeita, destaca-se o caráter de colecionador de câmeras e filmes antigos (marcando o que seria a modernidade em ruínas) e as múltiplas facetas do personagem como professor, psicólogo, fotógrafo e detetive (buscando apreender a fugidia condição do escritor pós-moderno). O texto aponta para o que, em certa medida, Ricardo Piglia afirmou sobre a escrita atual: o gênero policial, em todos os seus desdobramentos, é o grande gênero moderno que inunda o mundo contemporâneo. "Narra-se uma viagem ou um crime. Que outra coisa se pode narrar?". Às vezes, as duas coisas, é preciso ressaltar. Sob essa dupla sentença, Piglia parece refletir sobre as estratégias de construção textual presentes no romance de Rosenbaum. Sobreposta à viagem a Israel, e, em Israel, a viagem a Hebron, além da busca pela imagem da fotografia que desvelaria o segredo, a metáfora da arqueologia traduz, de forma contundente, a investigação que o protagonista realiza de si e do outro, espelhando, com requinte, a estrutura narrativa do romance.

A partir de um negativo fotográfico encontrado na Caverna dos Patriarcas, a Gruta de Macpelá, o narrador sai a campo em investigação. O complexo, localizado na antiga cidade de Hebron, depois do Monte do Templo, é o segundo local mais sagrado para os judeus e venerado, também, por cristãos e muçulmanos. Todos eles, com algumas variações, afirmam que é o lugar onde foram enterrados os quatro casais bíblicos, daí o nome “Macpelá” ser uma referência à câmara de sepultamento desses casais, ou seja, a caverna dos túmulos dos casais: Adão e Eva; Abraão e Sara; Isaque e Rebeca, Jacó e Lea.

As cidades de Rosenbaum, tal qual as de Cidades invisíveis, de Italo Calvino, aparecem especulares, refletidas, em dupla exposição, sendo atravessadas pelo narrador, com seu olhar avariado, diluindo as fronteiras, fazendo com que os limites sejam intercambiáveis. Jerusalém e Hebron prefigurariam, assim, espaços sagrados e profanos, espelhamentos de textos que são desfolhados ou revelados em suas entranhas a partir de referências ao campo semântico da fotografia, da arqueologia e da narrativa de enigma.

O passado, as ruínas, os restos mortais são iluminados pela escrita e pela investigação, como uma prova, no tempo presente, de algo que só chega a ser minimamente delineado. — “Prova? Você agora está escavando?”, pergunta a esposa de Adam. — “Estamos pesquisando”, ele responde. Ressalte-se, nessa citação, que a pergunta se apresenta no singular, mas a resposta, apesar de só poder ser também nesse diapasão, porque não há, explicitamente, outra pessoa junto a Adam, acontece no plural. Essa configuração múltipla do personagem é dúbia e está explícita em suas muitas facetas, na complexa conformação de seus vários eus. Ou seja, esse personagem também se apresenta a partir de “camadas arqueológicas” da vida presente com as passadas, relações conflituosas com a culturas e a tradição judaica, angústias e influências de textos e imagens que leu e escreveu ou fotografou.

Evidentemente que a ideia de duplo, presente desde o título do romance, tem, no nome do narrador, Adam, espelhando sua busca por Adão, e Macpelá, o nome da gruta que sugere o túmulo dos casais, além das cidades de Hebron e Jerusalém – com suas ruínas e reconstruções trazidas à luz, por escavações – na arqueologia, sua metáfora mais instigante. Por intermédio da comparação do passado de uma cidade com o passado psíquico, Sigmund Freud, em O mal-estar na cultura, reflete sobre o que o leitor pode analogamente vislumbrar na busca de Adam em Céu subterrâneo. Em vez de Roma, a cidade que insurge e ressurge do passado é Hebron, fazendo falar, a um só tempo, as vozes da tradição – de um tempo imemorial e mítico, que parece estar soterrado no passado – com índices do moderno e da contemporaneidade, como a fotografia, a computação gráfica, o holograma.

Céu subterrâneo, em níveis e desníveis, em estratos, espelhamentos, conformações e deformações, anseia que o leitor o atravesse, pari passu com o narrador. A busca obsessiva de Adam “pelo negativo” de uma imagem que todos julgam perdida, no entanto, não é vã. O leitor deverá acompanhá-lo por cidades e grutas, da superfície para o interior, num espaço labiríntico. Sem esquecer, todavia, que escavar-se é, também, ferir-se, e que quanto mais profunda a incursão na memória ancestral, mais ele pode se elevar, para, na superfície, respirar e sobreviver.

ROSENBAUM, Paulo. Céu subterrâneo. São Paulo: Perspectiva, 2016.

Mulheres em tempos sombrios (2016)


Passover in the Medieval Mediterranean

A Páscoa judaica representa uma passagem, uma transcendência e, como todos sabemos, a passagem de um tempo de escravidão, de ignorância e de obscurantismo, para um tempo de liberdade e de conhecimento. A comemoração de Pessach, então, para os judeus, não é uma festa vazia, sem significado. Ela remete a tempos muito antigos, de opressão e de intolerância, tempos de submissão forçada a um poder ignóbil. Nos tempos sombrios de escravidão, não só os corpos dos indivíduos estão sujeitos aos desmandos dos poderosos, ou daqueles que julgam ter poder, mas, também os espíritos podem estar subordinados. O tempo da escravidão dos hebreus, no entanto, não foi um tempo em que os espíritos foram escravizados. Houve, no escuro do abismo do cerceamento da liberdade, exemplos de espíritos livres que trabalharam para a independência, para o bem comum.

Enquanto celebração, Pessach é um ato de rememoração. Rememorar é recordar, é relembrar. No entanto, longe de estar preso, às lembranças, a um passado terrível e, para muitos de nós, imponderável, Pessach é uma celebração da vida, da vitória sobre a adversidade e sobre a intolerância, um ato de recordação do bem precioso que é a liberdade.

Todos nos lembramos das condições em que os hebreus se encontravam no Egito. Contemporaneamente, nossa memória está carregada de imagens sobre esses tempos difíceis. O clássico filme em que Charlton Heston com suas longas madeixas abre o Mar Vermelho para a passagem dos hebreus com seu cajado ou as belíssimas canções do filme de animação O Príncipe do Egito. Porém, a história de libertação dos cativos vem de um livro muito antigo, tão antigo quanto o próprio homem.

A Bíblia relata que os hebreus foram para o Egito para fugir de uma fome terrível que assolava Canaã, a terra prometida. Parece estranho que tal fato ocorra numa terra considerada dada por D-us. Mas, nessa terra da promessa houve fome. Uma fome tal que eles precisaram juntar os seus pertences e partir para uma terra estrangeira e estranha. A história dos hebreus ensina que, por mais que estejamos confiantes e que acreditemos que vivemos no Éden, no paraíso, é sempre bom estar atento e ser providente. Nenhum lugar é seguro quando somos espreitados por uma ameaça.

No Egito, a princípio, os hebreus foram bem recebidos. Todos devem se lembrar de José, o sonhador, um dos filhos de Jacó que, embora, no passado, tivesse sido vendido como escravo aos egípcios, por sua sabedoria, por seu caráter inabalável, agora, era um homem importante que possibilitou uma boa recepção a esse povo retirante, impelido pela fome a sair de sua terra.

Não é fácil sair de sua terra natal, para nós, talvez, a imagem que mais se aproxime desse percurso dos hebreus em direção ao Egito, seja a do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, imortalizado, também, por meio das belíssimas imagens, em preto e branco, do filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos. Os meninos, Sinhá Vitória e Fabiano caminham na paisagem estéril da caatinga, não sem esperanças, apesar de tudo lhes ser adverso.

Talvez para nós, hoje, no Brasil, não seja compreensível que, nos fins do século 19 e no início do século 20, acossados também pelas péssimas condições de vida e por perseguições incalculáveis como o isolamento em cidadezinhas ao redor das grandes cidades da Polônia, da Rússia, e em quase toda Europa, tantos judeus, ao imigrarem para a América, terra de tanta fartura, de tantas promessas, tenham chorado, em prosa e em verso, sua pequena aldeia, a terra em que viviam, em lírica miséria, com suas famílias.

Eu preciso voltar aos hebreus no Egito, porque o tempo passa, e o tempo passou também, no Egito. No Êxodo, no segundo livro da Bíblia, passaram-se séculos. Os filhos de Israel se multiplicaram e se tornaram numerosos. Então, um novo rei surge no Egito. A tradução portuguesa desse episódio é inquietante. Diz a Bíblia que esse novo faraó não conhecia José, o ex-escravo que, por sua sabedoria, havia conquistado a confiança do líder egípcio e que, com isso, pôde receber, os seus em terra estrangeira.

A palavra “conhecer” chama a atenção. Sabemos que a história do medo – tanto do medo real e imediato, tanto do medo que nos povoa a fantasia e é feito de sonhos, dos pequenos medos infantis do escuro até os grandes medos de uma catástrofe nuclear – passa, certamente, pelo medo do desconhecido. Um homem importante que não tem conhecimento, que não sabe, está no poder. Um homem assim é um perigo para todos, nós conhecemos a história, não foram só os hebreus que sofreram as consequências de um líder ignorante. Liderança exige conhecimento e sabedoria. Estamos diante desse líder anônimo, porém, fadado ao fracasso com os seus e com os estrangeiros que estão sob sua tutela. O soberano é responsável pela vida de todos.

O faraó que não conhecia José e cujo nome só sabemos, mais ou menos, pelos relatos históricos, não tem nome no relato bíblico. Parece estranho que o narrador não julgue importante registrar esse nome, talvez ele tenha esquecido... Devemos suspeitar de que esse “esquecimento” é um detalhe muito importante. O faraó não recebeu um nome na Bíblia, porque o escritor não lhe conferiu dignidade para tal. Esse líder importante, porém, ignorante, é, para os olhos do narrador do Êxodo, um instrumento do mal.

Isso se torna mais contundente quando – como se acometido de uma paranoia, ou um medo que compromete até sua capacidade de dirigir um povo importante e poderoso como os egípcios – ele teme que existam tantos filhos de Israel que, talvez, eles sejam muito mais fortes e muito maiores do que os egípcios. Dessa forma, por medo, os hebreus são vistos como ameaça.

Não podemos nos esquecer de que o faraó que acolhe José, séculos antes, ao contrário, faz do escravo hebreu um vice-rei, um dos cargos mais extraordinários do Egito depois do faraó. Ou seja, abaixo dele, só José, o escravo hebreu. Em seu novo cargo, José começa a preparar o Egito para os tempos de fome e de privação. Ele manda construir armazéns para estocar grãos para os tempos difíceis que virão. Quando os tempos são difíceis, é bom ter uma pessoa providente, de visão, por perto.

Ao contrário, nos tempos do Êxodo, um líder anônimo, um homem despreparado para dirigir o seu povo, está no poder. Esse homem resolve impor aos estrangeiros, mais especificamente aos hebreus que vivem sob seu governo, trabalhos forçados. É a partir desse momento que a narrativa torna-se, para nós, mais importante e mais contundente para os nossos dias.

Esse líder inapto tenta aliciar as parteiras dos hebreus para uma tentativa de genocídio. Essa foi a primeira, mas não será a última tentativa de extermínio a que os hebreus foram submetidos. Nessa tentativa de aliciamento dessas mulheres, que foram chamadas a agir de forma imoral em tempos sombrios, lembra-nos que elas podem representar qualquer um de nós. Esse é um fato para o qual devemos estar atentos: o poder, tal qual é representado pelo faraó, ou seja, um poder a que falta conhecimento, inepto e paranoico busca, inteligentemente, aliciar, corromper, cooptar.

Vamos voltar à história no Egito: o faraó, cujo nome ignoramos, convoca (e essa é uma palavra importante porque só aqueles que têm poder podem exercê-la) as mulheres denominadas de “parteiras dos hebreus”. Elas são convocadas para participar de um plano monstruoso: assassinar, no momento do parto, por ordem do faraó, os filhos das mulheres dos hebreus. Surpreendentemente, o narrador bíblico nos revela o nome dessas duas mulheres: Séfora e Fuá.

O mal necessita de asseclas, de colaboradores. No entanto, essas mulheres em tempos sombrios, sobre os quais não sabemos quase nada, negam-se a participar desse plano nefasto. É maravilhoso ter-se, na Bíblia, o registro dos nomes dessas mulheres e não termos o registro do nome do faraó.

Não podemos nos esquecer de que o rei representa, para os egípcios, a lei (dos homens e de deus). O faraó é, assim, um deus reinando sobre os homens. É esse homem-deus que ordena a matança das crianças. Essas mulheres, no entanto, num ato extraordinário, por que disso dependia a vida delas, resolvem descumprir a lei desse homem, que pensa ser D-us.

Elas descumpriram a lei, esse mandamento, porque mais importante do que a lei é a vida. Mais importante do que uma nuance legal, movida ao sabor dos poderosos, é a porção moral que em nós reside, que é uma parte de D-us em nós. Não desse pequeno, anônimo e paranoico homem, que dirige um povo tão importante quanto os egípcios, mas o D-us forte e poderoso que com poderosa mão retirará os escravos hebreus da tutela desse pequeno homem.

Mulheres em tempos sombrios precisam ser sábias. Imagino as parteiras diante do faraó recebendo essa lei imoral: “quando ajudardes as hebreias a parir, examinai, se for um menino que nascer, matai o recém-nascido, mas se for uma menina, deixem que viva”.

Argumenta-se que essa instrução não pode ser histórica, afinal, quando se quer exterminar um povo, as mulheres são as principais vítimas... O que o faraó exige é irracional: ele está tentando destruir seus escravos homens, sua força de trabalho, e fazendo isso de forma ineficaz. Pensando bem, duas parteiras não dariam conta da tarefa, se o número dos hebreus fosse realmente tão grande como ele acreditar Somente aos olhos desse líder enlouquecido pela ignorância, e pelo medo dos estrangeiros, os hebreus se multiplicam mais do que os egípcios.

Mas, prossegue o narrador, “as parteiras, tementes a Deus, não fizeram o que o rei do Egito tinha mandado e deixaram viver as crianças”. Palavras tão simples, tão belas e tão espetaculares. Essas mulheres tinham consciência de estarem debaixo de um poder que era o verdadeiro poder. Desse modo, não se submetem à ostentação fútil do faraó e fazem a coisa certa. Não sabemos se elas eram egípcias ou hebreias, sabemos os seus nomes, e, a partir de sua conduta moral, sabemos que, do seu refinado discernimento (deixaram as crianças viver), elas são pessoas de estatura – indivíduos de verdade que merecem nomes, Séfora e Fuá, ao contrário do faraó. Tampouco podemos esquecer que elas são mulheres que, com seu discernimento arguto da verdade profunda das coisas, deram um passo além, em relação a muitas outras mulheres da Bíblia, que muitas vezes, se omitiram. Muitas, com uma só palavra, atitude ou gesto, em tempos sombrios, poderiam ter mudado muitos acontecimentos terríveis.

Quando o faraó descobre que as parteiras lhe desobedeceram, ele as interpela mais uma vez com petulância: “Por que fizeram isso?” Então elas respondem: “As hebreias não são como as egípcias, na verdade, elas são muito ágeis e antes de a parteira chegar, elas já tiveram os seus bebês!”

O faraó exasperado avança um passo na sua irracionalidade e ordena que dali em diante todos os recém-nascidos hebreus do sexo masculino sejam lançados no Nilo. Dessa maneira, somos apresentados a outras mulheres excepcionais em tempos sombrios: a mãe de Moisés – o grande líder que retirará o povo hebreu do Egito –; sua irmã, Miriam, e a princesa, filha do faraó.

Não vou me demorar nessas mulheres, embora meu desejo fosse analisar cada uma de suas atitudes: a mãe que prepara, engenhosamente, com desvelo e carinho, a cestinha com terra e betume para ali colocar o seu filho e o depositar nas águas do rio; o zelo com que a irmã amorosa segue a cestinha ao sabor das ondas até que a filha do faraó, uma das mulheres não judias mais especiais da Bíblia, recolha a pequena arca no meio das taquaras do rio. A princesa vê a criança e por ele se apaixona, ela sabe perfeitamente que ele é um filho dos escravos, dos hebreus, ela sabe que os meninos deveriam ser assassinados. Ela não precisa fazer isso com suas próprias mãos, ela pode chamar um empregado e mandar “executar o serviço”. Ela pode exigir que se cumpra a lei do seu pai, o faraó. Porém, em tempos sombrios, pessoas extraordinárias surgem até no lado dos inimigos.

A irmã do menino “aparece” e se oferece para procurar uma ama de leite para ele – estrategicamente, uma babá que vem a ser a sua própria mãe. Assim, a criança é salva da morte certa por uma conspiração silenciosa de mulheres favoráveis à vida, de modo que ele cresce como um príncipe, um príncipe egípcio com uma mãe hebreia secreta, um homem que compreenderá o mundo do poder, mas será profundamente marcado pela sua condição. A princesa dá-lhe o nome de Moshe (ou Moisés).

Não é fácil ser criança ou ser mulher em tempos sombrios. Os momentos sombrios são momentos de escolha e as escolhas sempre são difíceis. O momento em que decido se trairei e enfiarei ou não a faca; se desviarei ou não valores que não me pertencem; se começarei ou não a tecer uma teia de mentiras para enredar inocentes. Esse momento, paradoxalmente, de profunda liberdade do indivíduo, é o momento da opção entre a luz e as trevas; momento de passagem, da escravidão para a liberdade. É o momento em que o passado pode pesar nas nossas costas, o presente pode ser irrespirável, mas decisivo para o futuro. A compreensão da responsabilidade desse exato momento de liberdade em que tenho e preciso decidir entre um caminho ou outro, no entanto, não precisa provocar remorso ou ansiedade, mas paz por cumprir o mandamento de preservar a vida, sempre, essa é a paz verdadeira.

A maior lição de Pessach é, então, saudar as novas gerações, nossos filhos, com a dignidade própria dos homens livres e de boa vontade. Em tempos sombrios, como são os tempos de passagem, é preciso valorizar a vida, antes de tudo.