Uma história de judeus e de medicina na América Latina (1996)

O romance A saga do marrano, de Marcos Aguinis, inscreve-se numa vertente de narrativas contemporâneas que promovem um discurso interdisciplinar entre a narrativa histórica e a construção de cenários e vozes pela ficção. Por isso, o trabalho fabulador do ficcionista passa por uma espécie de ambivalência, ou seja, o romancista-historiador constrói sua trama a partir de elementos factuais apropriados da história.

Armado sob a égide do Pentateuco, o romance se estrutura em cinco partes: Gênese, brasas da infância; Êxodo, o trajeto da perplexidade; Levítico: a cidade dos reis; Números, Chile: a breve Arcádia e Deuteronômio, abismo e cume. Por intermédio dos cinco livros bíblicos, o romancista trança a história dos judeus perseguidos pelo Santo Ofício na América Latina no século 16 e 17 com a ficção.

A narrativa busca reconstruir a saga de Francisco Maldonado da Silva, cristão-novo, cognominado marrano, como todos os judeus e mouros da Península Ibérica que, embora professando abertamente o cristianismo para evitar perseguições, continuam ocultamente fiéis à sua primitiva religião. “O efeito é trágico: somos católicos na aparência para sobreviver na carne, e somos judeus por dentro, para sobreviver no espírito”, como afirma o narrador.

O romance começa com a instalação do médico Diego Nuñez da Silva em San Miguel de Tucumán, Argentina. Nascido em Lisboa em 1548, este, quando obtém licenciatura em medicina, aos trinta e dois anos, farto das perseguições, decide fugir, mas ao desembarcar no Brasil, percebe que convinha afastar-se do território dominado pela Coroa Portuguesa. Assim, continua até o Peru, a lendária Potosí e, finalmente, até a província de Tucumán. Ali conhece Aldonza Maldonado, formosa cristã velha com quem teve quatro filhos: Diego, Francisco, Isabel e Felipa, que foram educados no catolicismo.

No entanto, Diego, o filho mais velho, machuca-se e o pai ao cuidar do pé enfermo, conta-lhe sobre a sua origem judaica e a necessidade de mantê-la oculta. Francisco ouve tudo. Diego Nuñez da Silva é delatado pelos religiosos que frequentavam sua casa, preso pela Inquisição e deportado para Lima, onde tem os pés queimados e o corpo atravessado por torturas até que renega a fé judaica e aceita o sambenito, “escapulário infamante, que chegava até os joelhos e vociferava sobre sua condição repudiável. Aqueles que eram humilhados com essa roupa terrível deviam usá-la eternamente para que os fiéis os discriminassem. E, após sua morte, o sambenito seria pendurando junto à porta da igreja, com seu nome em letras gigantescas, para que sua descendência também sofresse a devida mortificação”.

Adulto, Francisco vai para Lima para também estudar medicina e tentar rever o pai, preso há anos. O encontro deles e o descobrimento do judaísmo é um dos momentos mais delicados do romance que, por vezes, apresenta-se sombrio.

A narrativa detalhada das sessões de torturas e as descrições dos parcos recursos da medicina intentam suturar uma memória que se apresenta mutilada. O corpo dos prisioneiros é continuamente sujeito ao vilipêndio e às dores para cumprir a didática função de exemplo. Sangrias, amputações, lepra e tortura se equivalem. No caso de Mencia de Luna, jovem judia flagelada, o notário do Santo Ofício não se esquece de escrever que os juízes pronunciaram a devida justificativa: “E se no dito tormento morresse ou fosse aleijada, ou ocorresse perda de sangue ou mutilação de membros; seja por sua própria culpa e responsabilidade e não nossa.”

O romance histórico caminha pari passu com a documentação. Há, no entanto, episódios de rara beleza como a explicação sobre a letra hebraica shin encontrada por um dos meninos numa misteriosa caixa, “é o começo de muitas palavras: shemá, ‘ouve’, shalom, ‘paz’. Mas, sobretudo, é a primeira letra de shem, que significa ‘nome’. Acima de todos os nomes, existe o Shem, o ‘Nome’. Quer dizer, o inefável nome de Deus. O Shem tem infinito poder. Sobre isto, os cabalistas realizaram inúmeros estudos”.

Também se destaca o episódio da criação de dois livros na prisão por Francisco, colando pedaços pequenos de papel de embrulho até conseguir uma página, com um prego retirado da masmorra ele constrói uma pena para escrever. Cada página é preenchida com palavras miúdas parecidas com letras de forma. Francisco Maldonado da Silva não repudia sua fé, é condenado à fogueira e, na ocasião de sua execução, amarram em volta de seu pescoço os livros que escreveu na prisão. Várias testemunhas registram o instante em que as chamas azuis alcançam as folhas e um torvelinho de letras começa a girar insistentemente em torno de seus cabelos como uma coroa de safiras. A imagem magnífica e terrível do martírio de Francisco remete o leitor ao místico reino dos cabalistas judeus e do estudo e do amor aos livros. Se, como afirma o Zohar, em cada palavra brilham muitas luzes, no corpo-livro de Francisco brilham – como safiras – (da mesma raiz de sefer, livro) um testemunho da condição do homem e o do seu desejo de decifrar o universo por meio da escritura.

AGUINIS, Marcos. A saga do marrano. Trad. Hugueta Sendacz. São Paulo: Editora Página Aberta Ltda, 1996.