Os poemas são elegias – cantos tristes e ternos de lamento, – portanto, melancólicos, na melhor acepção da palavra. A melancolia transborda no verso que se escande em inúmeras tentativas de fazer arqueologia do sofrimento, da angústia, da perda. Antecipando a velhice, o sujeito poético (é preciso dizer) transborda e, na medida em que se escreve em “diário de uma viagem cancelada”, se perfila a vozes de outrora que também cantaram a morte, a solidão, a ausência: Dante, Hugo, Nerval, Holbein, Goethe, Azevedo e Drummond. Apesar das célebres companhias de uma tradição de cantores enlutados, o poeta afirma com suavidade: “não disponho de mapa / que me centralize, guia que indique meu paradeiro”.
Sem mapas ou testamentos, o sujeito parte em expedição, em escavação por entre boletins, cartas, álbuns... O passado, afirma o que há de lírico no poema e só faz sentido se permanecer desorganizado, no entanto, o retrocesso, da letra ao garrancho, é uma tentativa de colocar em ordem um paraíso perdido, uma alma desfolhada, em sutil agonia. Os objetos da memória, despossuídos de lógica, são relíquias, ciladas, coleções de autorretratos, confissões de amante e textos de lápides: cruéis em sua exatidão, profundos em sua escavação da dor.
Num mundo que perde, a cada dia, sua poesia, o poeta ressurge no que vê, no que sente, no ato amoroso de colar os brincos quebrados da amada. “Ando o dia inteiro a perseguir teus traços. / As esquinas se dobram como pétalas apressadas” e “haverá um homem afastado da esposa, um filho dos pais, os pais dos pais, Deus de Deus” são versos que afirmam essa ausência, a falta tremenda que aquele que parte deixa no enlutado.
O projeto poético do artista melancólico faz vislumbrar a poesia entremeada de inconfidências, de imensos vazios, preenchendo essa falta absoluta: “minha origem rejeita despedidas. / O judeu persegue um violino perdido; o cristão, / um cálice soterrado. Desconheço para onde vou. / Armo o voo porque me espantam com migalhas.”
Registros, prontuários médicos, pedras tumulares, roupas da mulher no cabide, joias, pequenas lembranças que habitam, para sempre, o espaço exíguo da página e o tempo infinito da poesia. “Lavei a esposa doente. Lavei a esposa enquanto se ia. / Tirei sua roupas sem desejo, o imenso carregado / e posto em estreita banheira. / Ensaboar o que não se move, o que não se respira, / ensaboar o invisível.” Ela, mulher, se prepara para o desenlace: a morte, na poesia do amado. Restringindo gradualmente os territórios: da cozinha a uma bandeja, da sala a uma gaveta, do corpo ao túmulo, ela se encena no território da poesia. Ele, viúvo, imprime na pagina branca do papel, elegias, cantos fúnebres, uivos solitários. A poesia é necessária, para que os mortos queridos permaneçam na superfície da memória. Cravados em pedra, no mármore frio da palavra cruel da despedida, os amantes entendem a máxima lição de Lázaro: morrer duas vezes. Uma de amor, de poesia, e a outra, por um equívoco ou, como afirmando-se, como em Drummond, que “as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão".
CARPINEJAR, Fabrício. Terceira sede: elegias. São Paulo: Escrituras Editora, 2001.
