Programa Lombada à Frente, com Miguel Rettenmair, sobre "Animais Desaparecidos.

"Lombada à Frente" é o seu programa semanal com dicas de leitura. A curadoria e apresentação do conteúdo é feita pelo escritor Miguel Rettenmaier. No episódio de hoje, conheça a obra "Animais Desaparecidos", de Lyslei Nascimento.

Fonte: https://open.spotify.com/episode/1WOnpana7CODYEHImiAs34


Photo by Rudi van Aarde




OPINIÃO

Animais desaparecidos em distopia

Livro descortina ação humana na catástrofe ecológica

Publicado em 22 de maio de 2023 | Por Lucia Blanc Barnea

Big colorful elephant is a painting by Kovacs Anna Brigitta which was uploaded on August 26th, 2015.

Atravessar os microcontos de “Animais Desaparecidos”, de Lyslei Nascimento, é um convite e um desafio para viajar pelo futuro de uma antropocena, um novo período da história do planeta, “em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica”, de acordo com José Eustáquio Diniz Alves, a partir do grau de impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza, avaliado pelo Prêmio Nobel de Química (1995) Paul Crutzen.

Composto por 12 narrativas de leveza quase insustentável e 14 verbetes ausentes, dispostos segundo a ordem alfabética, o livro de Lyslei Nascimento é um objeto compacto, quase um caderno de anotações, que não deixa de exibir um tom de registro nostálgico em uma estética quase minimalista entre o visível e o invisível.

Mais que um rolodex ou um caleidoscópio de animais extintos, as narrativas desfilam obras humanas importantes, inspiradas ou conectadas com a natureza de modo amplo, como a Bíblia em seu Velho e Novo Testamentos, a literatura de Jorge Luis Borges e de José de Alencar, a obra de William Shakespeare e de Machado de Assis, bem como a de Malba Tahan... a Royal Geographical Society, a psicanálise, a homeopatia.

Apesar de não explícito, outrossim nos desassossega o descortinar da ação humana em seus diferentes matizes na condução sistemática de uma catástrofe ecológica apocalíptica – seja nas queimadas, no comércio de carnes exóticas, na captura e no aprisionamento de borboletas com o objetivo de colecioná-las, na destruição da natureza e na construção das megalópoles de concreto armado da contemporaneidade; seja na manipulação genética para a criação de novas raças de animais, ou no assassinato brutal de elefantes para a captura de suas presas. 

Os animais aparecem não raro na sua forma plural, quiçá para despertar nosso pensamento e dirigi-lo ao caráter gregário da natureza. Nesse sentido, mais de uma espécie animal é, por vezes, citada em um mesmo verbete. Assim ocorre que o hipopótamo é citado no verbete da letra E, enquanto não há registro de animal que se inicia com a letra H, talvez para sugerir certa demência do animal-homem, no tecer dos fios da memória de uma civilização desmemoriada.

Animais Desaparecidos é, assim, um livro enxuto, de dimensões reduzidas, páginas cheias, páginas quase vazias, meias páginas, quase um compósito de pequenos textos e por folhas quase brancas. A leitura é frugal, singela, delicada como sua autora. A um só tempo, pode ser lido de um só fôlego, cortante e melancólico, com um forte quê de ecologia, talvez nossa última utopia. 

Sua autora, a professora Lyslei Nascimento, mestre generosa de inteligência plural e cultivada, nos guia – no prefácio e nas epígrafes selecionadas – a que veio, quem a inspira, com quem dialoga, e nos fornece uma lição que é todo um alarme de “ecoansiedade” pelo futuro do humano, como o conhecemos hoje. Reza a sabedoria tradicional que, sabendo usar, não faltará.

Lucia Blanc Barnea é escritora e antropóloga.

Fonte: https://www.otempo.com.br/opiniao/artigos/animais-desaparecidos-em-distopia-1.2872544

Fonte: https://www.incomunidade.pt/animais-desaparecidos-em-distopia-lucia-blanc-barnea/

Lyslei Nascimento (2023)



Graduada em Letras: Português e suas Literaturas - Faculdade de Letras/UFMG (1988-1991)

Especialista em Literatura Brasileira - Faculdade de Letras/UFMG: Ironia e humor na Literatura, sob orientação da Profa. Lélia Parreira Duarte - (1991).

Mestre em Letras: Literatura Brasileira (Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários/UFMG): Exercício de fiandeira: uma análise do romance Joaquina, filha do Tiradentes, de Maria José de Queiroz, sob orientação da Profa. Lélia Parreira Duarte - (1991-1993).

Doutora em Letras: Literatura Comparada - Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários/UFMG, com estágio na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires: Vestígios da tradição judaica: Borges e outros rabinos, sob orientação do Prof. Wander Melo Miranda (Pós-Lit/UFMG) e Noé Jitrik (UBA) - (1996-2001).

Pós-Doutora em Ciências Sociais - Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires: A literatura de imigração judaica pré-Shoah na Argentina, sob a supervisão do Prof. Ricardo Forster (UBA) - (2003-2004).

Pós-Doutora em Letras - Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos e Árabes da Universidade de São Paulo: O rol das coisas: memória e resistência na ficção sobre a Shoah, sob a supervisão da Profa. Berta Waldman (USP) - (2015-2016).

Pós-Doutora em Letras - Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos e Árabes da Universidade de São Paulo: Uma história do brinquedo na literatura da Shoah no Brasil, sob a supervisão da Profa. Nancy Rozenchan (USP) - (2022-2023 - em andamento).

Ganhadora do 2015-2016 Travel Award for Latin American Jewish Research na Universidade do Texas, em Austin, pelo Schusterman Center for Jewish Studies, e University Affiliate Visiting Scholar/Visiting Researcher, em 2015, na Universidade do Texas em Austin, Estados Unidos.

Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (1D).

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Resenha "Animais desaparecidos" - Estado de Minas, 08/02/2023

LIVRO

"Animais desaparecidos" trata de cenário distópico com leveza

No recém-lançado volume de contos da escritora mineira Lyslei Nascimento, diversas espécies foram completamente extintas

08/02/2023 04:00 - atualizado 07/02/2023 20:35


André Melo Mendes*
Especial para o Estado de Minas

Recém-lançado volume de contos 'Animais desaparecidos'

A escritora Lyslei Nascimento retrata um futuro distópico com leveza em seu recém-lançado volume de contos "Animais desaparecidos", em que espécies como as borboletas foram extintas.

(foto: Luis ACOSTA/AFP PHOTO)

Imaginar um tempo em que várias espécies de animais foram extintas não é um exercício impossível. Diante das investidas do homem contra outras espécies, mais do que ficção, o texto de “Animais desaparecidos”, de Lyslei Nascimento, é um alerta.

Nesse tempo cheio de ausências, “as borboletas desapareceram dos jardins das casas, das praças, das matas próximas e longínquas há muito tempo”, “os vaga-lumes, ou pirilampos, se volatilizaram na imensidão” e “os Louva-a-Deus, com suas mãozinhas postas como se rezassem, e seu verde que te quero verde, a lembrar as florestas extintas, não fizeram recuar os assassinos”.

O livro, publicado pela Editora MEPE, pode ser adquirido tanto impresso quanto no formato digital – e sua contemporaneidade também está na forma: ela segue os conselhos sugeridos por Italo Calvino em “Seis propostas para o próximo milênio”: com destaques à leveza e à rapidez.

No presente em que vivemos, no qual o tempo é um luxo, a arte da narrativa curta é uma estratégia que equilibra a leveza e o pesadume, real e metafórico. Em “Animais desaparecidos”, os verbetes são leves e, paradoxalmente, densos, em suas várias camadas ou níveis de sentido. O futuro distópico não é, em nenhum dos verbetes, apocalíptico, como o leitor pode estar acostumado a ler ou ver em filmes e séries atuais.

A autora prefere apostar na ironia, na sutileza das citações que podem ou não fisgar e atrair o leitor para outros textos, outros universos literários ou artísticos. O resultado é um momento de leveza ou de reflexão. Os contos são curtos, por vezes, sintéticos, mas possuem referências que irão interessar tanto aos leitores iniciantes quanto aqueles mais experientes.

No conto sobre o desaparecimento dos galos, por exemplo, Lyslei faz uma citação à história cristã, mais especificamente ao episódio bíblico que relata a negação do Apóstolo Pedro a Cristo, e também ao poema de João Cabral de Melo Neto,“Tecendo a manhã”.

Já no verbete sobre os Joões-de-Barro, a referência literária é evidente na menção a Otelo (Sheakespeare) e a Bentinho (Machado de Assis), personagens consagrados pelo cânone literário, mas também à música popular. As várias remissões, ligadas pelo sentimento corrosivo do ciúme, fazem espraiar outros sentidos e sentimentos fatais.

Por fim, no conto sobre os dromedários, há outra citação à literatura brasileira, dessa vez a “O Homem que calculava”, de Malba Tahan, pseudônimo de Julio César de Mello e Souza. Em seu livro, sugerido no verbete, o escritor narra as aventuras e proezas matemáticas do calculista persa Beremiz Samir na Bagdá do século 13.

O leitor poderá, ainda, perceber conexões com o cinema, nacional e internacional, nas referências, por exemplo, ao filme “O homem que copiava” e, a partir dessa percepção, construir outras interpretações sobre o texto.

Discreta, como é comum aos bons mineiros, Lyslei Nascimento continua seu caminho leve e rápido em direção a um lugar de destaque na literatura brasileira do século 21. Fiquemos atentos aos próximos lançamentos.

*André Melo Mendes é professor no departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

'Animais desaparecidos'

“ANIMAIS DESAPARECIDOS”

.Lyslei Nascimento

.Editora MEPE (67p.)

.R$ 33,54 e R$ 16 (e-book)

Fonte: https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2023/02/08/interna_cultura,1454642/animais-desaparecidos-trata-de-cenario-distopico-com-leveza.shtml



"Animais desaparecidos" no programa Universo Literários da UFMG

Nesta terça-feira, 31 de janeiro, de 2023, a Professora Titular de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da UFMG, ensaísta e tradutora Lyslei Nascimento participou do programa Universo Literário. Ela deu detalhes sobre seu novo livro, Animais Desaparecidos, que retrata a extinção de doze animais pela ação humana em um futuro imaginado. Link: Universo Literário - Rádio Educativa / UFMG



Animais desaparecidos (2023)





"Jamais permaneceremos os mesmos depois da leitura de Animais desaparecidos, de Lyslei Nascimento. A nossa mudança já começa a partir das epígrafes. Nelas, o tom profético, não sem ironia, do trecho do Gênesis faz coro com as palavras de Samuel Hahnemann e de Jorge Luis Borges, cujas vozes parecem nos dizer: “Preste atenção na seta apontada por este livro”. Seduzidos por essa advertência, decidimos prosseguir em nossa leitura, ao longo da trilha feita de 12 verbetes, das abelhas às zebras, passando pelos elefantes, pelos dromedários. Então descobrimos, neste livro feito de ficção, reflexão e prosa poética, que a seta às quais as epígrafes aludiam se voltaria para nós mesmos, para o exame inadiável — e cada vez mais urgente — da posição que temos escolhido ocupar diante da devastação de tudo o que poderia nos manter vivos neste planeta." (Ana Cecília Carvalho)

* Professora da UFMG Lyslei Nascimento retrata extinção de animais em novo livro de microcontos - Programa Universo Literário (UFMG)