Livro: Shoah: 80 anos de memória e resistência (2022)


Shoah – 80 anos de memória e resistência [vol. 1 – Diáspora e Imigração]

Lyslei Nascimento e João Paulo Vani (org.).

ISBN: 978-65-86731-17-0 (impresso) | 978-65-86731-18-7 (e-book)

Nº. de páginas: 358 | 1ª edição – 2022

HN Editora: https://editorahn.com.br/produto/shoah-1/

Sinopse:

Passados 80 anos da Shoah, do Holocausto. Centenas, quiçá milhares de filmes sobre o tema. Centenas, quiçá milhares de livros. Centenas, quiçá milhares de estudos acadêmicos. Sempre lembrar, para nunca se repetir, aparece como o primeiro elemento para entendermos a densidade de abordagens sobre o tema da Shoah. É uma responsabilidade de cada um, e de todos nós, nunca deixar o Holocausto cair no esquecimento. Ainda mais neste estranho século XXI que nos surpreende com o renascer de movimentos neonazistas sempre entoando a mentira do negacionismo, desconstruindo a história, substituindo a verdade pela mentira; ao mesmo tempo que os sobreviventes vão, com pesar, se despedindo ano a ano. Nossa responsabilidade só aumenta; e muito. 

Mas para além do compromisso com a verdade, com a resistência, devemos também destacar que a Shoah parece um acontecimento tão especial, tão único, que nunca realmente poderemos estar satisfeitos com todas as abordagens já elaboradas e apresentadas. Há 25 anos, participo da organização do Festival de Cinema Judaico de São Paulo como diretor de Cultura Judaica da ‘A Hebraica SP’ e, a cada ano, vemos surgirem novos filmes sempre inovadores sobre a Shoah. A alma humana atingiu seus limites; a proposta e execução da solução final – devidamente explorada nesta coletânea – colocou-nos frente a uma infinitude de aspectos a considerar. A alma humana se dilacerou, enfrentou situações de crueldade sem precedentes e, assim, por qualquer ângulo a observar, emergem relações que nos levam a tramas humanas inacreditáveis, marcadas pela realidade da Shoah: desde os caminhos que o antissemitismo encontrou para a ascensão do nazismo com a vitória de Hitler nos anos 30, seguido do inferno indescritível dos campos de concentração revisitado em detalhes por meio de relatos, memórias, reflexões de muitas naturezas, até os rumos dos judeus após a Segunda Grande Guerra, mais uma vez o povo errante espalhando-se pelo mundo. Temos certeza de que estamos realmente decifrando o indecifrável.

Todos estes aspectos estão presentes nesta coletânea de estudos primorosos. Um time nacional e internacional que se debruça sobre o tema da Shoah e nos permite mergulhar em tantas questões intrigantes, recuperando vasta literatura disponível sobre a nervura escolhida para cada ensaio. 

Já no título da coleção, Shoah: 80 anos de memória e resistência, percebemos a intenção escancarada de produzir uma obra que seja um estudo acadêmico sobre o tema, e que, mais que tudo, seja uma tomada de posição, a construção de barricadas para enfrentar o Nazismo em suas múltiplas facetas nos sombrios dias em que vivemos. Um projeto engajado, um clamor contra todas as faces do nazi-fascismo que busca ganhar força em tantos países, especialmente na velha Europa, mas não apenas por lá.

Trecho do prefácio de José Luiz Goldfarb

Autores participantes:

Alessandra F. Conde da Silva
Irene Flunser Pimentel
Kenia Maria de Almeida Pereira
Leonardo Senkman
Luiz Nazario
Márcio Seligmann-Silva
Nilton Melo Almeida
Regina Zilberman
Ricardo Garro
Rosana Kohl Bines
Saul Kirschbaum
Sofia Debora Levy
Susan Lewis
Susana Skura

Torá: o livro que é luz, porta, caminho (2022)


Muitos povos se conservaram graças a uma terra. Muitos ficaram unidos graças a uma língua. Alguns por causa de uma cor, outros por uma bandeira. Nós, o povo judaico, conservamo-nos graças a um Livro. A nossa árvore da vida foi a Torá. Se nós nos esquecêssemos do Livro, estaríamos cometendo suicídio coletivo. Se nos tornássemos ignorantes de seu conteúdo, estaríamos nos condenando à amnésia coletiva.

                                                                                        (Henry I. Sobel)

Muitos povos escreveram e criaram grandes livros, mas a Torá, a Bíblia Hebraica, fez um povo, como afirmou o Rabino Sobel. Esse grande Livro, no entanto, é publicado, lido, estudado e reverenciado em benefício de toda a humanidade, não somente dos judeus. A consciência de um texto que é luz que ilumina os caminhos, como dizia o salmista, traz muitas responsabilidades. Entre elas, a condição do leitor como intérprete. A interpretação é, portanto, também um legado judaico, um dos maiores e mais importantes em tempos sombrios de intolerância religiosa, étnica, racial, a fim de promover a paz e, para além da tolerância, a coexistência entre todos os povos.

A reflexão sobre a Torá e como esse Livro chegou até nós através dos séculos, é uma história de resistência e de amor às letras. Muitos homens e mulheres morreram para preservar manuscritos, pergaminhos, livros. A Torá, como uma biblioteca infinita, de acordo com Moacyr Scliar, é nossa pátria metafórica e portátil. Por mais de 2.000 anos, o texto – a Bíblia, o Talmud, a literatura como as de Scholem Aleichem, Amos Oz, David Grossman, o próprio Scliar – constitui-se como um “território imaginário” que acompanha não só os judeus, mas toda a civilização ocidental.

A Inquisição (séculos XII ao XVIII na Europa e nas Américas) e a Shoah (o Holocausto, no século XX) com suas atrocidades, colocaram o antissemitismo, como nos alerta, Scliar, na categoria de praga social. A criação do Estado de Israel, na década de 1940, atraiu não só judeus refugiados da Segunda Guerra, mas imigrantes de Norte da África e do Oriente Médio, consolidando-se como uma das mais importantes respostas à tentativa de extermínio de um povo.

Numa ala do Museu de Israel, perto de Givat Ram, no nordeste de Jerusalém, localiza-se o Santuário do Livro (em hebraico: היכל הספר Heikhal HaSefer), que hospeda os Pergaminhos do Mar Morto.

Que esse santuário seja, para nós, o exemplo de uma resposta judaica ao mal que atingiu a todos, não somente aos judeus. Que a nossa história se eternize e adquira novos olhares sobre a importância do Livro que é luz, porta e caminho.