Torá: o livro que é luz, porta, caminho (2022)


Muitos povos se conservaram graças a uma terra. Muitos ficaram unidos graças a uma língua. Alguns por causa de uma cor, outros por uma bandeira. Nós, o povo judaico, conservamo-nos graças a um Livro. A nossa árvore da vida foi a Torá. Se nós nos esquecêssemos do Livro, estaríamos cometendo suicídio coletivo. Se nos tornássemos ignorantes de seu conteúdo, estaríamos nos condenando à amnésia coletiva.

                                                                                        (Henry I. Sobel)

Muitos povos escreveram e criaram grandes livros, mas a Torá, a Bíblia Hebraica, fez um povo, como afirmou o Rabino Sobel. Esse grande Livro, no entanto, é publicado, lido, estudado e reverenciado em benefício de toda a humanidade, não somente dos judeus. A consciência de um texto que é luz que ilumina os caminhos, como dizia o salmista, traz muitas responsabilidades. Entre elas, a condição do leitor como intérprete. A interpretação é, portanto, também um legado judaico, um dos maiores e mais importantes em tempos sombrios de intolerância religiosa, étnica, racial, a fim de promover a paz e, para além da tolerância, a coexistência entre todos os povos.

A reflexão sobre a Torá e como esse Livro chegou até nós através dos séculos, é uma história de resistência e de amor às letras. Muitos homens e mulheres morreram para preservar manuscritos, pergaminhos, livros. A Torá, como uma biblioteca infinita, de acordo com Moacyr Scliar, é nossa pátria metafórica e portátil. Por mais de 2.000 anos, o texto – a Bíblia, o Talmud, a literatura como as de Scholem Aleichem, Amos Oz, David Grossman, o próprio Scliar – constitui-se como um “território imaginário” que acompanha não só os judeus, mas toda a civilização ocidental.

A Inquisição (séculos XII ao XVIII na Europa e nas Américas) e a Shoah (o Holocausto, no século XX) com suas atrocidades, colocaram o antissemitismo, como nos alerta, Scliar, na categoria de praga social. A criação do Estado de Israel, na década de 1940, atraiu não só judeus refugiados da Segunda Guerra, mas imigrantes de Norte da África e do Oriente Médio, consolidando-se como uma das mais importantes respostas à tentativa de extermínio de um povo.

Numa ala do Museu de Israel, perto de Givat Ram, no nordeste de Jerusalém, localiza-se o Santuário do Livro (em hebraico: היכל הספר Heikhal HaSefer), que hospeda os Pergaminhos do Mar Morto.

Que esse santuário seja, para nós, o exemplo de uma resposta judaica ao mal que atingiu a todos, não somente aos judeus. Que a nossa história se eternize e adquira novos olhares sobre a importância do Livro que é luz, porta e caminho.


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