Outrora achava o acréscimo diário de pequenos atos
O alimento para o coração entorpecido,
Dores e violência sendo a dieta adequada da vida,
Agora, afastada da loucura dos extremos
Por aquilo que tem se ser feito, o aqui,
Como as fronteiras que são mantidas pela paciência, após a guerra,
Entra o sereno amigo, e minhas mãos ensinadas pelo tempo
Misturam o pão e consertam a casa em ruínas.
(Doris Lessing)
O segundo volume da autobiografia da escritora Doris Lessing – nascida em Kermanshah (antiga Pérsia, 1919) e falecida em Londres, em 2013 – além de se configurar como um relato vibrante sobre os anos após a II Guerra Mundial, delineia, de forma poética e lúcida, algumas questões em que uma mulher – comunista e escritora – tece os emaranhados fios que se armam entre a política e a escrita, entre o texto e a vida.
Antes, o primeiro volume, Debaixo da minha pele, compõe-se de relatos sobre a infância, a adolescência e a juventude, a vivência da sexualidade e o prazer de escrever. O estilo despojado da escritora, no entanto, não esconde uma reflexão requintada sobre os problemas da autobiografia, da escrita da vida. Nesse volume, Lessing afirma que as mulheres, em geral, são apagadas da memória e depois da história. A contrapelo dessa sentença, o segundo volume, Andando na sombra, descortina não só o papel de uma intelectual no contexto europeu do pós-guerra, como também, a partir da sua vida, mapeia os anseios e as paixões que marcaram as vidas de jovens intelectuais nas décadas de 1940 a 1960.
Impossível descrever a vida de um escritor porque a parte real não pode ser escrita, argumenta Lessing. Fica, no entanto, sobre as páginas de sua autobiografia, uma mulher escrita. Como que debruçada sobre um espelho, ela busca ver-se enquanto escreve: “eu ando e rondo, as mãos ocupadas com isto ou aquilo. Seria de se pensar que sou um modelo de dona de casa. Caio no sono por alguns minutos porque entrei num estado de tensão elétrica desconfortável. Ando, escrevo. Se o telefone toca, tento atendê-lo sem romper a concentração. E assim vai, o dia todo, até que seja hora de pegar meu filho na escola...”.
Essa escrita com o corpo, entremeada a afazeres domésticos e interferências da vida comum, saltam aos olhos do leitor, ansioso por flagrar, debaixo da pele e da página, escrita íntima da sombra, a mão que escreve e dela faz exercício de narrar-se, de encenar-se no palco da página.
Tempos difíceis produzem pessoas extraordinárias, diz Lessing. A triste Londres dos anos 1940 e início dos anos 1950 recebe uma jovem e seu filhos vindos da Rodésia do Sul. A cidade sem pintura, manchada, rachada e cinzenta fora bombardeada. Algumas áreas eram só ruínas com buracos cheios de água suja. A Londres sujeita a nevoeiros súbitos e escuros implacáveis a acolheu como uma lousa limpa, uma página nova, na qual tudo estava por vir e todos os livros estavam por se escrever. Nesse cenário precário e em ruínas. ela é generosa e hospitaleira. Exercer a hospitalidade em tempos sombrios requer, de todos, empatia e solidariedade.
Entre editoras, trabalhos domésticos e empregos que roubavam o tempo da escrita, mas propiciavam uma certa sobrevivência, havia os membros do Partido Comunista. Fomos sustentados no exílio pelo esplendor da Palavra, diz a escritora, e logo mais entraremos em nossa terra prometida. Esse utópico olhar sobre o mundo e o poder da palavra, conclui, fez com que os comunistas seus conhecidos fossem alimentados e sustentados pela literatura: Shelley, Keats e Hopkins, Dickens e Hardy, as Brontë e Jane Austen fizeram parte desse acervo literário do exílio de jovens políticos refugiados numa Londres que renascia sob as reuniões do Partido, as passeatas pela paz e os congressos e conferências de intelectuais e de escritores.
Um encontro com uma leitora especial no Rio de Janeiro é descrito de forma emocionada. Estava sentada num bar frente a um hotel quando foi abordada por jovens prostitutas. “Minha amiga quer lhe dizer uma coisa. Ela não fala inglês. Ela adora você”. Na verdade, reflete, ela adora o livro O carnê dourado que lhe caiu nas mãos. “Como é que o livro chegou a uma das piores favelas do mundo? Fiquei infinitamente comovida, agradecida.”
“Hoje”, afirma Lessing, “acredito que a necessidade de aprender seja a paixão mais poderosa que temos, e a mais profunda também; acredito,” acrescenta, “que os jovens, quando começam novas revistas, ou uma nova onda, ou comunas, estão na verdade construindo situações onde podem aprender muito em pouco tempo.”
O chapéu comprado em Paris, o primeiro gato, o alcoolismo, fragmentos de cartas, retratos. Tudo, quando se é uma escritora como Doris Lessing, que utiliza a escrita para descobrir o que se pensa e, até mesmo, quem se é, cada detalhe é peça de um mosaico composto de vestígios de uma memória que se escreve enquanto o sujeito se constitui pela narrativa.
LESSING, Doris. Debaixo da minha pele: primeiro volume da minha autobiografia, até 1949. Tradução: Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
LESSING, Doris. Andando na sombra: segundo volume da minha autobiografia, 1949-1962. Tradução: Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.